Gospel
Da dor ao propósito: por que Michelle Nascimento não desistiu — e não desistirá
Coragem. Após anos marcados por ataques, perdas e reconstrução, a cantora, compositora, pastora, mãe e avó Michelle Nascimento fala sobre um dos períodos mais difíceis de sua trajetória. Em entrevista, ela relata momentos em que pensou em abandonar a carreira e o ministério, fala sobre a fé que a sustentou e explica como decidiu transformar experiências dolorosas em propósito.
Com mais de 20 anos de trajetória na música cristã, Michelle construiu uma carreira marcada por apresentações em diferentes regiões do Brasil e também por experiências internacionais.
Ao longo de sua caminhada, passou por igrejas, congressos, conferências, grandes eventos e diferentes cidades brasileiras, levando sua música e a mensagem cristã.
Sua trajetória também ultrapassou as fronteiras do país. Michelle esteve nos Estados Unidos, Israel, Portugal, Inglaterra, Espanha, Bélgica, Alemanha, França e Chile, segundo informações apresentadas pela própria artista, para participar de eventos, gravar projetos e ministrar.
Ao longo dos anos, a cantora também ampliou sua presença no ambiente digital. Segundo dados apresentados por Michelle, suas músicas, videoclipes e demais projetos já ultrapassaram 200 milhões de streams e visualizações no YouTube e em plataformas digitais.
Para a cantora, entretanto, os números representam mais do que alcance.
“Mais do que números, cada reprodução representa a possibilidade de uma vida ser alcançada por meio da música e da Palavra de Deus”, afirma.
Por trás da artista, porém, existe também a história de uma mulher que precisou lidar com períodos de grande dificuldade.
Mãe, avó, cantora, compositora e atualmente pastora, Michelle chega aos 41 anos depois de atravessar uma fase que, segundo ela, provocou mudanças profundas em sua vida pessoal, familiar e profissional.
Durante muito tempo, preferiu não falar detalhadamente sobre o que viveu. Agora, decidiu compartilhar parte dessa história.
O posicionamento político e o início de um período difícil
Michelle nunca escondeu suas convicções políticas. Ela afirma se identificar com a direita e diz que seu posicionamento está relacionado ao amor pelo Brasil e à insatisfação com problemas como corrupção, injustiça, desigualdade e má utilização dos recursos públicos.
“Eu amo o meu país. Sou patriota e me posiciono porque acredito no Brasil. O brasileiro é um povo guerreiro, trabalhador e merece uma nação que combata a corrupção, respeite seus cidadãos e trate com responsabilidade aquilo que pertence ao povo.”
A partir de 2022, quando passou a manifestar publicamente suas posições políticas com maior intensidade, Michelle relata que começou a enfrentar uma forte reação.
Segundo a cantora, parte das manifestações permaneceu no campo político e ideológico. Outras, porém, teriam ultrapassado, em sua avaliação, os limites da divergência e atingido sua honra, sua reputação e sua família.
Michelle afirma ter preservado documentos, registros e capturas de tela relacionados a publicações e manifestações feitas naquele período, inclusive conteúdos que posteriormente deixaram de estar disponíveis.
Entre os veículos e páginas que publicaram conteúdos a respeito dela esteve o Fuxico Gospel. Michelle afirma considerar que determinadas publicações daquele período ultrapassaram os limites da crítica legítima e contribuíram para um ambiente que ela vivenciou como hostil.
A cantora também relata ter recebido comentários ofensivos e mensagens que, segundo ela, provocaram preocupação e medo.
Uma das situações que mais a afetaram, de acordo com seu relato, foi perceber que parte das críticas vinha de pessoas que também professavam a fé cristã.
Para Michelle, que construiu praticamente toda a carreira dentro da música gospel e das igrejas, esse aspecto tornou o período ainda mais difícil.
Uma viagem aos Estados Unidos
Em meio àquele período, Michelle viajou aos Estados Unidos após receber um convite para participar de uma conferência.
Segundo a cantora, enquanto estava no país, a repercussão relacionada ao seu posicionamento político aumentou no Brasil.
Diante das notícias, publicações e comentários que chegavam até ela, Michelle relata que familiares, lideranças e pessoas próximas demonstraram preocupação e aconselharam que permanecesse por mais algum tempo nos Estados Unidos.
Durante a estadia, ela afirma ter recebido o acolhimento de amigos, pastores, irmãos na fé e igrejas.
“Em um momento extremamente delicado da minha vida, Deus colocou pessoas no meu caminho que abriram as portas, me acolheram, oraram comigo e estiveram ao meu lado. Eu jamais esquecerei disso.”
A chegada de Lavinea
Em janeiro de 2023, sua irmã, Gisele Nascimento, também cantora cristã, acompanhou Lavinea Nascimento, filha de Michelle, em sua ida aos Estados Unidos.
Para Michelle, a chegada da filha significou mais do que companhia.
“A Lavinea é minha única filha, minha companheira e minha amiga. Ela sabia o que eu estava enfrentando e queria estar perto de mim, me dando suporte naquele momento.”
Mãe e filha permaneceram juntas nos Estados Unidos durante parte daquele período e, segundo Michelle, buscaram conduzir suas respectivas situações migratórias pelos meios legais e procedimentos disponíveis perante as autoridades norte-americanas.
Posteriormente, Michelle retornou ao Brasil após o resultado referente ao seu próprio procedimento migratório.
A situação de Lavinea, por sua vez, seguiu seu próprio curso perante as autoridades norte-americanas.
Durante aquele período, Michelle e a filha também receberam apoio de Calyston, companheiro de Lavinea, que, segundo ela, as acolheu e ofereceu suporte nos Estados Unidos.
“Sou muito grata ao Calyston e a todas as pessoas que nos acolheram. Deus usou amigos, pastores, igrejas e pessoas que estiveram conosco quando mais precisávamos.”
Posteriormente, Lavinea permaneceu nos Estados Unidos e, ao lado de Calyston, construiu sua família. Dessa união nasceu Rogger Zion, primeiro neto de Michelle.
A distância familiar tornou-se uma das partes mais dolorosas dessa história.
Segundo Michelle, há cerca de um ano ela não vê pessoalmente a filha e o neto.
“Já faz um ano que eu não vejo a minha filha e o meu neto. Isso dói muito. A Lavinea é minha única filha, minha companheira e minha amiga, e o Rogger Zion é meu primeiro neto. Existem momentos que não voltam, e estar longe deles durante todo esse tempo é uma das coisas que mais doem em toda essa história.”
Mesmo diante da distância, Michelle afirma que procura preservar os vínculos familiares e encontra na fé forças para atravessar esse período.
“Eu creio que Deus está cuidando de nós, mesmo quando estamos longe uns dos outros. Ele está cuidando da minha filha, do meu neto e da nossa família. É essa fé que continua me sustentando.”
Quando as consequências chegam à carreira
Para Michelle, os acontecimentos daquele período não ficaram restritos às redes sociais ou ao debate político.
Ela relata consequências pessoais, emocionais, familiares, profissionais e financeiras.
Uma das situações que considera mais dolorosas envolveu sua relação profissional com a MK Music, gravadora que fez parte de uma fase importante de sua trajetória.
Michelle afirma que sua permanência nos Estados Unidos, naquele momento também motivada pelo receio que sentia em relação à sua segurança caso retornasse ao Brasil, acabou interferindo na continuidade da relação profissional com a gravadora.
Segundo ela, existia a possibilidade de novos trabalhos e gravações serem realizados nos Estados Unidos. Ainda assim, naquele contexto, a direção da gravadora optou pela não continuidade do contrato.
“Eu não escolhi simplesmente encerrar aquele ciclo. Naquele momento, eu estava nos Estados Unidos e tinha muito receio de retornar ao Brasil por tudo o que estava acontecendo. Existia possibilidade de continuarmos trabalhando e gravando nos Estados Unidos, mas a gravadora decidiu não prosseguir com o contrato.”
Michelle relaciona essa perda profissional ao conjunto de consequências que afirma ter enfrentado após intensificar seu posicionamento político.
“Na minha percepção, eu não perdi apenas um contrato. Eu estava vendo as consequências de tudo aquilo alcançarem também a minha profissão e uma carreira que levei muitos anos para construir. Foi muito doloroso.”
Os anos seguintes, especialmente 2023, 2024 e 2025, foram, segundo ela, marcados por um processo de reorganização pessoal e profissional.
Foi necessário reconstruir a carreira, relações e também a própria vida emocional.
“Eu pensei em desistir de absolutamente tudo”
Mesmo depois de mais de duas décadas de carreira, Michelle admite algo que durante muito tempo manteve reservado.
Houve momentos em que pensou em desistir.
Da carreira, do ministério, dos projetos e, segundo ela, de absolutamente tudo.
“Eu pensei em desistir da minha carreira, do meu ministério, de absolutamente tudo. Foram situações que atingiram diferentes áreas da minha vida, inclusive relações familiares. Durante muito tempo eu não quis falar sobre isso publicamente porque não achava necessário me expor.”
Segundo Michelle, algumas feridas permaneceram durante anos.
Uma das etapas mais difíceis de sua reconstrução, afirma, foi o perdão.
“Há pouco tempo eu entendi que precisava liberar perdão sobre muitas coisas que aconteceram. Perdoar não significa dizer que aquilo não doeu. Significa decidir que aquela dor não vai continuar governando a nossa vida.”
Hoje, ao olhar para trás, Michelle diz perceber uma mulher diferente daquela que atravessou os momentos mais difíceis.
“Tudo o que aconteceu me fez uma mulher mais forte. Eu não estou contando minha história para alimentar ódio. Estou contando porque sobrevivi a um período que mudou profundamente a minha vida e porque acredito que aquilo que vivemos também pode gerar propósito.”
Não se trata de vingança
Ao decidir falar publicamente, Michelle afirma que não pretende perseguir quem pensa diferente dela.
Ela também diz defender a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a crítica, a investigação, a denúncia de boa-fé e o jornalismo responsável.
“Eu sou a favor da liberdade de expressão. Sou a favor da liberdade de imprensa, da crítica, da investigação, da denúncia de boa-fé e do jornalismo responsável. Uma democracia precisa garantir esses direitos.”
Sua preocupação, segundo ela, está na utilização da internet para fabricar ou disseminar deliberadamente informações falsas capazes de causar danos à honra, à imagem, à reputação, à família ou à atividade profissional de uma pessoa.
Para Michelle, a dimensão alcançada pelas redes sociais tornou essa discussão ainda mais importante.
“A internet se tornou uma ferramenta extraordinária, mas também pode se transformar em uma arma quando utilizada para destruir deliberadamente alguém. Liberdade de expressão precisa ser preservada. Mas liberdade não pode significar licença para fabricar uma mentira e destruir a reputação e a vida de uma pessoa.”
Michelle ressalta que eventuais responsabilizações devem ocorrer dentro da Constituição, da legislação brasileira, do devido processo legal e com garantia do direito de defesa.
Da dor ao propósito
É nesse contexto que uma experiência pessoal começa a ganhar uma nova dimensão na trajetória de Michelle.
A cantora, que pretende disputar uma vaga de deputada federal pelo Rio de Janeiro, afirma que deseja transformar parte do que viveu em propostas voltadas à proteção de outras pessoas.
Entre suas preocupações está a proteção da honra, da imagem e da reputação no ambiente digital, especialmente diante da fabricação e disseminação deliberada de informações falsas.
Para Michelle, qualquer discussão sobre mudanças ou aperfeiçoamentos nessa área precisa caminhar ao lado da preservação da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa, da crítica, da denúncia de boa-fé e do jornalismo responsável.
“Quem pensa diferente de mim tem todo o direito de pensar diferente. Quem quiser me criticar tem o direito de me criticar. Isso faz parte da democracia. O que precisamos enfrentar é a utilização deliberada da mentira para destruir a vida e a reputação de uma pessoa.”
Michelle afirma que sua atuação política não pretende se limitar a essa pauta.
Famílias, mulheres, crianças, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade estão entre aqueles que pretende contemplar em seus projetos e propostas.
“Quero trabalhar por leis que cuidem do nosso povo brasileiro, das nossas famílias, da nossa dignidade e também do nosso nome. Quero transformar experiências que vivi em instrumentos que possam proteger outras pessoas.”
A fé que permaneceu
Apesar de tudo o que relata ter vivido, Michelle continua sendo cantora.
Continua gravando, lançando músicas e servindo à igreja.
Também acrescentou à sua trajetória uma nova missão: o ministério pastoral.
Aos 41 anos, é cantora, compositora, pastora, mãe e avó.
Ao entrar na vida pública, afirma que não pretende abandonar nenhuma dessas identidades.
Para Michelle, a política não substitui sua fé, sua família ou sua música. É uma nova forma de utilizar a voz que construiu durante mais de duas décadas.
“Eu não quero que as pessoas conheçam apenas aquilo que aconteceu comigo. Quero que conheçam aquilo que Deus fez em mim depois de tudo. Eu perdoei, me levantei e continuei. Deus nunca deixou de me amparar. Ele está cuidando de mim, da minha família, da minha filha e dos meus netos.”
E, depois de tudo, Michelle escolhe uma palavra para representar esse novo capítulo:
CORAGEM.
Coragem para continuar quando desistir parecia mais fácil.
Coragem para perdoar sem apagar aquilo que viveu.
Coragem para continuar cantando.
Coragem para continuar servindo.
Coragem para se posicionar.
Coragem para transformar dor em propósito.
“Se aquilo que eu vivi puder contribuir para proteger outras pessoas e outras famílias, então uma parte da minha dor terá se transformado em propósito.”
Depois de mais de 20 anos de carreira e, segundo dados apresentados pela própria artista, mais de 200 milhões de streams e visualizações, Michelle Nascimento continua usando aquilo que sempre esteve no centro de sua trajetória: a sua voz.
E sua história, agora, não é somente sobre aquilo que tentou fazê-la parar.
É sobre a CORAGEM que a fez continuar.
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