Professor Cássio Luige relata preconceito que sofreu na universidade por ser cristão

Professor Cássio Luige – Foto: Thiago Misan

Cássio Luige é professor de pré-vestibulares em Belo Horizonte. Ele está ganhando visibilidade na internet por suas aulas bem humoradas e performances extravagantes, como dar voadoras em sala de aula, por exemplo. O que muitas pessoas não sabem é que, além de sua forma de trabalho pouco tradicional, há outra coisa em sua vida pessoal diferente de muitos outros professores de História. Ele alega ser adepto do cristianismo, embora não seja membro de nenhuma igreja. Algo atípico entre professores desta área. Abaixo, ele comenta sobre alguns preconceitos que já enfrentou por causa da fé, principalmente no meio universitário. Leia seu relato abaixo:

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A troca do altar pela sala de aula

Eu cresci na igreja e desde o início da minha adolescência participei de inúmeros ministérios. Dava aulas na escola dominical e já pregava com 14 anos de idade. Isso me ajudou muito com a habilidade de falar em público. Entrei para o seminário com 16 anos no intuito de me tornar pastor. Mas, dois anos depois me afastei da igreja por questões particulares. Foi nesse momento que decidi ser professor e me graduar em História. Atualmente não tenho vínculo com religião e só frequento a igreja em raras ocasiões. Entretanto, sempre soube da importância que a igreja teve na minha formação de caráter e social. A igreja foi um lar para mim na infância e adolescência. E esse papel social me ajudou a vencer crises existenciais, familiares e inúmeros outras. É por isso que fico desconfortável ao ver pessoas tentando menosprezar a importância da igreja na sociedade. Muitas comunidades carentes, dependentes químicos, pessoas com problemas psicológicos e outros recebem uma assistência da Igreja que jamais receberiam em outro lugar.

Preconceito na Universidade

Primeiramente, deixo claro que os relatos a seguir representam minhas experiências pessoais. Não quer dizer que todos que entrarem na universidade passarão pelo que passei. Pelo contrário, estou certo de que muitas pessoas passaram por experiências muito diferentes das minhas. Contudo, afirmo que o local onde mais visualizei preconceito contra cristãos foi na faculdade de filosofia e ciências humanas da UFMG.

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Eu fui aprovado no vestibular no auge das manifestações de 2013. O mundo vivia o reflexo da Primavera Árabe, iniciada em 2010, que transformou as redes sociais em lugar de manifestação de opiniões. Discursos embasados nos princípios de tolerância e respeito à diversidade pairavam no mundo virtual e nas rodas de conversa dos vestibulandos que convivi naquele ano. Contudo, não demorou muito para que eu percebesse que na prática a realidade seria outra.

Não é segredo para ninguém que existe uma preferência expressiva entre os membros da área de ciência humanas pelos ideais políticos de esquerda. Não há nenhum problema nisso, é claro. Vivemos em um país democrático, onde cada um é livre para defender o que quer. Inclusive tenho muita simpatia por ideais que defendem os órfãos e as viúvas. Contudo, me deparei com grupos radicais de alunos e professores que, quando encontraram oportunidade, buscaram massacrar e ridicularizar opiniões opostas às suas. Dentro dessas opiniões, o marxismo radical, que afirma que a religião é o ópio do povo. Logo, o cristianismo que é visto por muitos como religião, também seria.

Nesse mesmo ano de 2013, em que os discursos democráticos circulavam pelo país, vivi alguns episódios bem alheios a estes princípios. Inúmeras vezes, um grupo que costumava investigar fatos pelas redes sociais dos colegas de turma do curso de História, descobriram informações da minha vida privada e começaram a expor meus defeitos na sala de aula para tentar provar que minha fé era contraditória. Mesmo que, nesta época, eu já não frequentasse igreja, muito menos fizesse grandes manifestações sobre minha fé. Parecia que o simples fato de ter alguém que não negava os cristãos incomodava.

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Alvo do “Grupo do Mal”

Além das exposições em sala de aula, sem dúvidas um episódio que marcou negativamente a minha vida ocorreu num evento clandestino que ocorria dentro do campus conhecido como “Na Tora”. Era o meu primeiro período e eu estava deslumbrado com todas as novidades do mundo universitário. Em um círculo de colegas, o “grupo do mal” começou a proferir ofensas contra o cristianismo. Antes que eu me notasse, me tornei o alvo da conversa em função de postagens cristãs em minha rede social. Tentei justificar alegando que minha fé estava embasada em anos de boas experiências. Mas eles não queriam me ouvir. Apenas acusar. Era tarde demais para me esquivar.

Eu não sabia, mas eles haviam tido informações de questões muito privadas e conflituosas que eu viva na época. De repente, meus maiores conflitos estavam ali, sendo expostos para pessoas que eu acabara de conhecer. Naquele momento, eu não me contive. Saí correndo e chorando como uma criança. Não acreditei que pessoas que falavam tanto sobre respeito e tolerância estivessem me causando tanto constrangimento.

Hoje, não me causa sinto mal por lembrar ou falar disso. Mas confesso que foi algo difícil de superar. Principalmente porque este evento seria repercutido por nos próximos períodos. Agradeço a Deus por eu não ter desistido do curso naquele momento. Mas logo percebi que esta situação me proporcionou um grande crescimento. Eu não deveria estar em um evento clandestino. Além disso, precisava estar mais atento para escolher as pessoas com quem eu iria caminhar. E, por fim, priorizar o que eu estava ali para fazer: estudar.

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Um colega de turma, membro de uma igreja – e, com certeza, muito mais fervoroso na fé do que eu – passou por situações piores com esse mesmo grupo. Chegaram a propor em redes sociais que fosse organizado um ato de repúdio contra ele, acusando-o de ser fascista. Uma relação absurda é claro. E uma completa distorção do termo “fascismo”. Ser contra o aborto e a liberação indiscriminada do uso de drogas, ter uma visão política mais ligada ao conservadorismo e admirar a hierarquia militar, não o tornava um “fascista”.

Essas situações já são ruins envolvendo apenas estudantes jovens que acabaram de entrar na faculdade. Mas o pior é que não parou por aí. É muito delicado falar sobre isso, pois, não quero que essa colocação seja generalizada. Não pretendo, de modo algum, ofender a maior parte dos meus mentores. A maioria dos professores foi muito profissional durante toda minha permanência da UFMG. Tenho muito orgulho e admiração pela maior parte deles.

Por isso, o comportamento de alguns poucos, não pode ser apresentado como regra. Mas, infelizmente, alguns poucos também foram muito desrespeitosos. Fizeram piadas ridicularizando religiosos, como se fossem o que há de pior na sociedade. Sendo incisivos durante um período inteiro de curso, associavam o ateísmo ao conhecimento pleno e a religião como um sinônimo de ignorância suprema. Chegando ao ponto de afirmarem que o Brasil vive uma estagnação em seu desenvolvimento devido aos entraves provocados pela religião.

Acusaram abertamente a “bancada evangélica” – que representa uma parcela significativa da sociedade brasileira – por inúmeros retrocessos na sociedade, como se esta fosse a única a apresentar problemas. Estas manifestações públicas de opinião só fortaleciam o preconceito que partia dos estudantes. Este é um dos motivos, pelos quais, elimino das minhas aulas a exposição dos meus pensamentos e opiniões.

Mais uma vez, reafirmo que, nada do que eu disse anteriormente deve ser generalizado. Muitas pessoas passaram por ali e tiveram experiências muito diferentes das minhas. Recentemente, soube por uma amiga que há um grupo de alunos que se reúne para fazer orações dentro da FAFICH e, segundo ela, nunca enfrentaram nenhum problema por fazê-las. Fiquei muito feliz ao saber disso. Principalmente por confirmar que, as experiências ruins que eu vivi, não vão se repetir com todos.

Cássio Luige – Foto: Calebe Nogueira

Considerações Finais

Não é difícil perceber que algumas pessoas tendem a se auto-divinizar quando adquirem algum grau de instrução superior. Entretanto, seria injusto afirmar que a ciência e o conhecimento são culpados pela corrupção do pensamento e pela intolerância. O preconceito acontece em qualquer lugar e pode partir de qualquer um. Para mim, a ciência e a fé não são caminhos opostos, mas sim linhas paralelas que se complementam. Portanto, o preconceito e a discriminação exercida contra qualquer grupo estão ligados a dificuldade do ser humano em aceitar o outro.

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Existe uma grande necessidade de maior tolerância em relação ao pensamento e as crenças alheias. Isso se chama alteridade. Portanto, seria interessante se os cristãos fossem incluídos nos discursos de tolerância e respeito à diversidade. Ou será que eu preciso lembrar que os cristãos também foram perseguidos desde a antiguidade? É claro que as igrejas cristãs também já cometeram e cometem erros. Mas não se conserta um erro do passado cometendo outros no presente.

Por Cássio Luige.

 


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